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fevereiro 13, 2006

AGOSTINHO DA SILVA: TORNAR-SE CONTAGIOSO

O importante, disse-o um dia a alguém que me pedia conselho, é ser-se o que se é e tornar-se contagioso. A primeira responsabilidade que nos assiste é saber o que se é: continuo convencido de que todos nós nascemos com uma partitura na cabeça. Depois, tantas vezes, ou porque nos faltou mestre de música, ou porque não encontramos piano à mão, vamo-nos entretendo a tocar coisas que não são da nossa partitura. Há então que fazer o esforço, individual ou colectivo, de achar o mestre e o piano que a partitura exige. Conseguido isso, devemos tornar-nos contagiosos.

Temos na história de Portugal indivíduos exemplares nesse esforço.

Camões: desde que resolveu ser Camões, persistiu até ao fim, contra ventos e marés, em tocar a sua partitura, negando-se a ser o que os outros queriam que ele fosse e sendo ao mesmo tempo os diversos que foi. Só lhe faltou inventar ele os heterónimos que foi, para se irmanar a Fernando Pessoa. Deixou-nos esse trabalho a nós: podemos percorrer a obra que ele foi assinando com o mesmo nome e inventar os heterónimos que cabem a cada composição.

António Vieira: outro homem de heterónimos. Ora enverga a modesta roupeta da Companhia, ora o traje ligeiro de andar nos sertões do Brasil, ora a sumptuosa indumentária do diplomata europeu. Também podemos percorrer-lhes os actos e os escritos e inventar heterónimos que os designem na sua diversidade.

Fernando Pessoa: poupou-nos muito do trabalho de invenção, pois deixou sair de dentro de si os seus heterónimos.

De comum nos três: nenhum deles se rendeu. Com a manha muito portuguesa em Vieira de se não render rendendo-se a uma Companhia cuja regra é que os seus membros se lhe abandonem como cadáveres activos. Mas pobre da Companhia, que passou a obedecer a Vieira e a andar a reboque dos seus planos grandiosos!

Prof. Agostinho da Silva

Publicado por João Carvalho Fernandes às fevereiro 13, 2006 04:00 PM

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