março 26, 2004

PAULO FERREIRA DA CUNHA

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Professor universitário, político, filósofo, escritor, pai, bloguer, etc, etc, etc.. Quantas horas tem o dia para si?

PFC - O tempo é uma questão psicológica. Não conto as horas do meu dia. Sinto que tem poucas. Há quem sussurre que celebrei um pacto com o demónio e assim tenho mais tempo, ou clones diabinhos a trabalhar por ou para mim. A verdade é só que detesto perder tempo, e procuro acabar o que começo: e o mais depressa possível. Por outro lado, descanso de uns trabalhos fazendo outros. Em mim, a distinção entre trabalhar e divertir-me só é nítida quando tenho que trabalhar em burocracias universitárias ou ir a reuniões chatas. Em suma, o poder fazer muitas coisas depende realmente do grau de empenhamento (e de prazer) que tenho nelas. Nesse sentido, são os meus demónios a trabalhar...

Goza de grande prestígio no estrangeiro, nomeadamente no Brasil. Em Portugal, parece-me que não é tão conhecido. "Em casa de ferreiro, espeto de pau"?

PFC - Seria mais: "Santos de casa não fazem milagres!"

Colocando a questão de outra maneira: creio que foi precisamente um "luso-brasileiro", o Padre António Vieira,quem disse - sem dúvida com alguma amargura - que Portugal era "uma nesga de terra para nascer e todo o mundo para morrer". E para citar outro grande clássico, também cada vez mais acho que Teixeira de Pascoaes identificou bem a nossa psicologia colectiva. Traduzindo-o em termos modernos, acho que somos um país com imensas qualidades, mas com uns defeitozinhos decisivos. Um deles é a dificuldade de cooperação social - o que tem como consequência até um défice de intervenção cívica -, a que preside, no fundo, um profundo individualismo, que na sua vertente positiva dá homens de "um só parecer" "de antes quebrar que torcer", e na sua vertente negativa (mais difundida em tempos de decadência como os que vivemos) desemboca numa verrinosa inveja.

Chego aqui à sua pergunta: eu acho que não só eu como muitos espíritos que preferem a cooperação ao protagonismo assassino acabam por ser mais reconhecidos lá fora porque cá dentro são "cem cães a um osso" e o vizinho não pode ver a nossa relva mais verde. Há gente que estiola ou pelo menos
esmorece em ambientes de excessiva malquerença. Cito só um exemplo, dos nossos livros científicos.
Enquanto lá fora os autores fazem gala em neles agradecer às vezes a dezenas de colegas, colaboradores e amigos a quem deram previamente a ler os seus trabalhos, aqui aferrrolham-nos com medo de serem plagiados, e não agradecem mesmo quando tinham motivos para isso. (E o problema é que o medo de plágio não é paranóia, é real). Dito tudo isto, quero dizer-lhe que Portugal é o país que eu escolheria para ter nascido... embora talvez pense no Brasil se um dia me reformar...

Conte-nos algumas das suas ideias que possam contribuir para a melhoria do Ensino em Portugal.

PFC - O ensino em Portugal encontra-se numa situação de calamidade pública. Antes de mais, seria preciso acabar com a demagogia e reconhecê-lo, declarando um estado de sítio educativo.

Os três principais eixos de mudança resumir-se-iam em enfrentar os males a sério, sem preconceitos, paninhos quentes e modernices suicidas: Professores dignificados e capazes de avaliar; Gestão profissional sem demagogia e submetida a quem sabe mais; Cursos e programas privilegiando o básico e o que é formativo.

Só há ensino com professores. Precisamos urgentemente de Professores competentes, motivados, com autoridade, e com poderes suficientes para verdadeiramente avaliar. Um dos problemas mais graves do nosso ensino a todos os níveis é que os professores (que o não confessam) têm medo de avaliar, porque temem as represálias dos superiores, dos colegas, do ministério, dos alunos. As primeiras medidas seriam no sentido de criar um clima de confiança e auto-estima dos docentes. Isso teria que passar por rever o orçamento do ministério da educação e pagar aos professores à medida da sua função social importantíssima. Deve dar-se mesmo prioridade à educação.

Só deixando de ser um semi-pária social, desconsiderado por todos, o Professor poderia ganhar de novo auto-confiança e cumprir o seu papel. Isso teria de passar concomitantemente pela abolição de todas as medidas e estruturas repressivas, inspectivas e avaliatórias, que, se podem detectar aqui e ali um ou outro professor menos bom, em geral só têm como efeitos desperdícios de meios e de tempo e a criação de um clima de subserviência e hipocrisia, em que se procuram artificialmente apresentar bons resultados (aprovações) por medo.

A segunda reforma de fundo seria uma mudança profunda na estrutura de poder de todos os níveis de ensino. O Estatuto da Carreira Docente Universitária nem é muito mau, precisando de ser revisto pontualmente, nomeadamente terminando com a obrigatoriedade de as Universidades contratarem todos os que se doutoram – e hoje são multidão. Deveria este Estatuto ser posto em prática onde o não está a ser, nomeadamente quanto à responsabilidade dos orientadores pedagógicos sobre todos os docentes em formação. Bastaria isso para resolver o problema da Pedagogia, que hoje se agita como fruto de uma santa aliança de tecnocratas, burocratas, mandarins e activistas estudantis extremistas. O que precisa de profunda revisão, isso sim, é o sistema de gestão.

Depois de muito ponderar prós e contras, que os há sempre, sou favorável a que as escolas tenham vários directores para os assuntos administrativos, submetidos a conselhos científico-pedagógicos (não faz sentido separar) que, por seu turno, deixem de ser constituídos por professores de 1.ª, 2.ª e 3.ª classe, provocando jogos de poder inaceitáveis. Só quem nada tem a temer pode realmente votar com independência. Sem preconceitos, eu diria que poderia haver directores executivos de carreira, submetidos a um conselho científico-pedagógico de catedráticos de nomeação definitiva, obviamente sem subordinar estes, como querem hoje alguns, a magnos conselhos nacionais ou a super-catedráticos, no fundo, a mandarins. Nos restantes graus de ensino, o actual sistema também está esgotado. Fui membro de um conselho directivo no liceu, enquanto aluno, e era frustrantíssimo… A ideia de paridade e participação nos órgãos por parte dos estudantes é apenas desejo de poder, e de tirocínio político por parte de uns poucos activistas – como eu fui, aliás. Acho que o poder deve ser exercido, em suma, por quem mais sabe e mais foi avaliado, no plano científico e pedagógico – os catedráticos, os professores coordenadores, os professores efectivos com mais graus académicos, etc., consoante os graus.

As coisas burocráticas não devem ser para os professores, nem para os estudantes, mas para altos funcionários, submetidos ao duplo controlo dos conselhos científico-pedagógicos, e a um órgão que se poderia chamar conselho de escola, espécie de parlamento, esse sim paritário entre professores e estudantes, com funções de consulta, discussão e fiscalização.

O terceiro domínio essencial seria a mudança dos conteúdos programáticos e dos planos de estudos. Se na Universidade temos de defender até à morte a liberdade académica, que implica que cada professor do quadro (não um assistente estagiário, por exemplo) deva decidir com liberdade do seu programa, nos demais graus de ensino impõe-se uma revisão profundíssima dos programas e dos planos de estudos. Todos sabemos que há matérias básicas, essenciais, e que hoje as crianças e os adolescentes vivem sobrecarregadíssimos com matérias e mais matérias, cadeiras e mais cadeiras, chegando contudo à Universidade a saber quase nada.

Por um lado, tal é fruto do laxismo na avaliação, que já referi, mas também resulta da megalomania dos nossos programas e planos de estudos. Nesse domínio, sem dúvida que o Português e a Matemática, como linguagens, são essenciais. Mas eu iria privilegiar os Basics, o essencial em geral. E dominada a Língua e a Interpretação e a Redacção, e as matérias imprescindíveis à vida da Aritmética, da Álgebra e da Geometria, também não faria sempre fincapé em formar todos em Camões e Einsteins. Não me repugna que, a partir de um dado momento, se pudesse optar entre Literatura e História, entre Matemática e Filosofia, etc.

Há sobretudo que dar aos estudantes referências. Hoje o ensino científico é muito mais vasto que no meu tempo, mas ninguém se localiza em cidadania e cultura, ninguém sabe melhor onde e como está no Mundo por saber mais Química orgânica ou Cristalografia… Contudo, é aberrante como se não sabe História, Geografia, Filosofia… até a nossa Literatura…que, longe de serem só matérias para os tidos como bastardos cursos de Letras são, afinal, o que nos identifica, como Portugueses, como Europeus.

Estamos a formar sobretudo stupid scientists, como dizia creio que Bertrand Russell. E nem isso, porque somos globalmente péssimos a Matemática. Por outro lado - e de novo não é puxar a brasa à minha sardinha - é absurdo que hoje não se ensine a toda a gente obrigatoriamente Direito no ensino secundário: é um instrumento de cidadania. Mas, obviamente, não com um programinha pós-moderno contra a globalização e por uma versão esquerdizante dos direitos humanos, como será de prever se continuarem a pontificar as sumidades que os media nos impõem.

Nem só Portugal ganharia com uma reforma assim. Ganhariam antes de mais os estudantes, que hoje são ludibriados por um facilitismo avaliador a par de muitos trabalhos e provas realmente com pouco préstimo. Hoje tem-se muitas aulas, muitos testes, muitas avaliações, muitos trabalhos extra-lectivos, mas é-se pouco rigoroso na avaliação, dispersivo nas matérias, e aos estudantes não são dados instrumentos mínimos de crítica, reflexão, e conteúdos elementares. Iludidos com uma pseudo-representação, os estudantes embrenham-se nos meandros do poder das escolas e afastam-se quer do estudo, quer do controle desse poder.

A participação e a paridade executivas são ardis aculturadores, integradores, domesticadores da autonomia estudantil. Mas reconhecemos que é muito difícil vencer a mentalidade conservadora, mesmo nos estudantes, habituados ao statu quo…

E em geral, evidentemente, analisar estas três propostas com ponderação sem as etiquetar de qualquer coisa obscena está muito para além dos hábitos dos nossos activistas e doutos observadores no domínio da educação, que além disso falam outra língua: o eduquês...

Há espaço político para o Liberalismo em Portugal?

PFC - Como sabe, sou liberal. Gostaria de me dizer um liberal liberal, já que hoje têm de se colocar adjectivos, porque a expressão foi sendo apropriada por uns e labelizada por outros, de forma que poucos se entenderão à partida quando se fala em liberalismo. O liberalismo que professo é um liberalismo social e ético. É um liberalismo bebido nas raízes verdadeiramente clássicas, desde logo com Adam Smith, mas muito um Thomas Hill Green, por exemplo, e que tem uma componente portuguesa iniludível e mais funda ainda, que tanto transporta o legado revolucionário de 1640, como se orgulha da pioneira acção social dos liberais no Reino Unido e se alimenta do legado da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão francesa, a qual é a tradução moderna do Direito Natural, o qual recua teoricamente ao velho Aristóteles. E que, como ainda recentemente foi comprovado por Zanotti e Termes, não tem qualquer incompatibilidade, antes confluência, com a doutrina social da Igreja, assente classicamente em Tomás de Aquino.

Enfim: sou um novo-velho liberal. Porque o que é velho e original volta de novo, esse é que é novo, porque esse é que é actual. Como vê, por isto haverá muitos pretensos liberais que me excomungarão… mas esses, no meu ponto de vista, é que não são liberais.

Um liberalismo que saiba quais são as suas raízes, atento, sem dúvida, a contributos mais modernos (naturalmente Hayek, claro, mas bem lido e lido todo), mas recusando extremismos de demolidores do Estado à marretada que nos querem até privatizar o ar que respiramos, um liberalismo moderado e ponderado, como é hoje o liberalismo social professado pela Internacional Liberal, para cujo último congresso, em Dakar, como sabe, fui um dos dois portugueses convidados (o outro foi o Prof. José Adelino Maltez), um liberalismo assim tem total espaço político em Portugal.

Mas só este tipo de liberalismo: um liberalismo com tradição (como há anos proclamava o FDP alemão), com pais e avós fundadores e inspiradores, que nos associe os conspiradores da manhã de Nevoeiro do 1.º de Dezembro, a pena indómita do nosso António Ribeiro dos Santos, compreenda a aventura intelectual de Silvestre Pinheiro Ferreira, e vá de Herculano e Garrett à própria Maria da Fonte, contra os Cabrais e os novos Cabrais, e recorde o liberal Fernando Pessoa, e oiça a lição desse liberal sem o ser Agostinho da Silva até ao recentemente falecido Orlando Vitorino. E lembre, num abraço atlântico, o sonho de Gilberto Freyre, que não era puro liberal, mas era nosso, e os rigorosos liberais brasileiros, de extraordinário valor, como Roque Spencer Maciel de Barros, ou António Paim …

O liberalismo tem essa vantagem sobre as ideologias ideológicas que é o ser abrangente, e não ter pejo em colher o que é bom onde quer que esteja. Mas temos em Portugal uma tradição liberal muito mal estudada, muito mal valorizada, e é triste ver como quem tem generosos impulsos liberais acabe por ir cair nos braços de um liberalismo frio, muito austríaco, que se mal se aplica na prática a países germânicos, muito menos teria cabimento entre nós.

Portugal precisa de recuperar as suas raízes liberais, que estão aliás nos próprios factores democráticos da sua formação, estudados por Jaime Cortesão, na originalidade e carácter popular e pactício do poder, sublinhados por Pascoaes. Porque antes de haver liberalismo, já Portugal fora liberal. Esse espírito foi vergado, martirizado, torturado, por séculos de velha Inquisição e de novas inquisições. A última é o politicamente correcto.

Mas estou firmemente persuadido de que o liberalismo só triunfará em Portugal se souber demarcar-se do chamado neo-liberalismo, a que uns chamam (embora com riscos de confusão) libertarismo ou libertarianismo (à americana) e que melhor se chamaria anarco-capitalismo. Entendendo aqui capitalismo não como mero mercado livre ou economia livre (como propunha João Paulo II para evitar confusões) mas como poder e privilégio dos possidentes. Nenhum futuro existe, a meu ver, num país com um fundo de missão e de valores (apesar da actual decadência) para uma ideologia simplesmente materialista como o anarco-capitalismo, além disso pouco credível e muito caricatural nas propostas bombásticas de bota-abaixo. Nenhum futuro para uma ideologia que é, pelo menos em grande medida, álibi de ricos (e pose de intelectuais snobs ou aspirantes a ricos) para manter e aprofundar sem complexos de culpa os seus privilégios, num país que em geral vive mal, onde há pobreza, privação, carência, profundas desigualdades. Nenhum futuro num país católico, mas de um catolicismo muito nosso, quase diria, católico e laico (coisas que vêm do anti-clericalismo lusitano) para ideologias intrinsecamente protestantes.

O verdadeiro liberalismo luta pela Liberdade, pela Igualdade e pela Justiça, como ensinava Adam Smith. Esse espaço ainda não foi reivindicado aqui por ninguém nos nossos dias. Esse é o que as pessoas sentem que é preciso.

Acha que as pessoas estão esclarecidas sobre o que significam as próximas eleições europeias, nomeadamente no que diz respeito à "Constituição Europeia"?

PFC - De modo nenhum. Há uma cortina de silêncio sobre o assunto. Não só as pessoas não estão esclarecidas como muitos têm interesse em que o não estejam.

Vou ser rápido, porque falei muito nas questões anteriores: não querem os nossos novos senhores que se fale no assunto. E quando se fala é para o levar para a demagogia ou para outra forma de demagogia - a demagogia dos intelectuais - que é o plano estritamente técnico. É a mais perigosa revolução branca da História. Por isso, a Organização europeia pró-Referendo, com que a Nova Democracia (PND) trabalha, vai perguntar, um a um, a cada partido e a cada candidato ao Parlamento Europeu se é a favor de um referendo. Estou certo de que num referendo sério - sério, repito - a Europa nunca chegaria a este tratado. Pode até fazer-se uma Constituição Europeia codificada. Não seria necessária, mas enfim.... Todavia, teria que se voltar à estaca zero e convocar uma Constituinte. E com alguma forma de paridade entre os Estados. Isso é que seria Federalismo autêntico....

O que se está a construir já não é sequer federalismo: é um novo Estado Europeu único, de que Portugal será uma pobre, desprezada, segregada, humilhada província periférica.E se o Povo português não der sinal de vida e independência nas próximas eleições europeias, dificilmente poderá levantar a cabeça no futuro, ou mantê-la erguida como povo não digo já sequer soberano, mas autónomo. Por isso é fundamental uma derrota do capitulacionismo nestas próximas eleições: o que se revela complicado, porque há uma ditadura dos "media", que fecham a porta a quem não diga "mais do mesmo".

Publicado por João Carvalho Fernandes em março 26, 2004 06:20 PM | TrackBack
Comentários

Parabéns.
Há mais direita para além da direita portuguesa...

Afixado por: Jumento em março 26, 2004 10:21 PM

Agradecendo os parabéns, para mais vindos de um blog dos melhores, apenas um comentário ao comentário anterior: é que, sendo liberal, precisamente não me considero nem de direita nem de esquerda...
Aliás, esses rótulos, que todos usamos ainda (como tiques, pelo menos, e sobretudo por irritação) querem dizer hoje cada vez menos se falarmos com rigor. Por exemplo, quando critiquei coisas a cultura, os media, o ensino politicamente correctos disse mesmo "esquerdizante", referindo-me a esse velho dogmatismo; mas poderia ter criticado complexos "direitistas" na economia dos anarco-capitalistas, por exemplo.
Creio que também nesta questão ideológica o liberalismo de hoje, social e ético, pode ser um bom contributo, para acabar com esse antagonismo maniquista.
Já agora, permito-me aconselhar o "Political compass". http://www.politicalcompass.org/
Uma visão menos linear do problema.

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 26, 2004 11:30 PM

É preciso vir ao fumaças para ver o Paulo? Sim!!! ;-) beijinhos

Afixado por: jacky em março 27, 2004 02:18 AM

Gostei de ler o Paulo Ferrreira da Cunha, confesso. Mais quando disse mais ou menos assim: Hayek ... “mas recusando extremismos de demolidores do Estado à marretada que nos querem até privatizar o ar que respiramos”. Menos, dessa peregrina ideia de pretender compartimentar territórios, isto é, assumir o meu Agostinho, o teu Freyre, o nosso Orlando Vitorino, o meu vate Pessoa … Não nos parece que os tempos sejam esses.
Por fim um grande abraço & charutos ao velho Fumaças.

almocreve

Afixado por: almocreve em março 27, 2004 02:32 AM

OS NOSSOS

Caro Almocreve, outro clássico da bloguesfera, obrigado. Permita-me também um esclarecimento. Eu acho, obviamente - mas não me expliquei certamente bem (e falei tanto, mesmo assim)- que nenhuma pessoa é de ninguém (de outra pessoa ou grupo, de qualquer dimensão)a nenhum nível. Em todo o caso, não somos nós que nos apropriamos dos clássicos: sentimo-nos identificados com eles, e assim dizemos que eles nos influenciaram. Há um estudo interessantíssimo sobre isso, de Bloom: "The anxiety of influence". Portanto, quando falei em inspiradores, são esses nossos patronos imaginados, que poderiam, aliás, se o soubessem, rejeitar alguns dos que os invocam - certamente. Embora no caso esperemos que tal não ocorresse, e paternalmente ou maternalmente olhem para nós, complacentes, lá do céu...ou do seu olimpo terrestre, se ainda forem vivos.
Assim, quando disse que, por exemplo, Freyre não seria liberal mas era "nosso", queria aludir, evidentemente, a uma das mais lusitanas das teorias brasileiras: o luso-tropicalismo, que depois teve ajustamentos mais brásílicos, mas em qualquer das versões é uma grande grande explicação do "mundo que o português criou". Nosso, esse, porque "português" honorário, por assim dizer. Quando estive na casa de Gilberto Freyre em Recife, confesso, quase chorei ao ver os azulejos da sua sala - levados daqui, com autorização especial do governo: porque, se era proibido exportá-los, lá podiam estar, porque lá "também era Portugal". Isso é que é ser nosso.
Saudações.

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 27, 2004 07:28 AM

Cara Jacky, do blogue florido: enfio o barrete, e vou tentar ligar-te hoje. Afinal, o meu dia tem realmente poucas horas, e há amigos que se queixam... Que vergonha! É o desmoronar da teoria dos diabinhos que me fazem tudo...Beijinhos...

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 27, 2004 07:45 AM

Excelente entrevista! :)

Afixado por: Miguel Duarte em março 27, 2004 10:38 AM

Obrigado, caro Miguel Duarte. Aproveito esta oportunidade, pedindo desculpa ao público e ao anfitrião do Blog, para lhe pedir o seu e-mail. Um vírus comeu-o da minha lista. Um abraço.

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 27, 2004 11:06 AM

Caro Paulo Ferreira da Cunha, lê-lo foi como uma rajada de vento. Esclareça-me só uma coisita, fiquei confuso: liberal=anarquista? Dadas as minhas raízes cristãs, pequeno-burguesas e esquerdistas, caminhei para o que considero ser um anarquista. Houve uma altura em que me auto-apelidava de liberal - mas depois de ver o termo conotado à direita reaccionária e ao pior conservadorismo, deixei cair o rótulo. Deverei pensar que um liberal é um anarca de raízes da direita e um anarca é um liberal oriundo da esquerda?

O liberalismo não voltará a triunfar em Portugal pela simples razão de que Portugal está a deixar de existir. Francamente, não terei pena: o passado ninguém nos rouba e para o futuro antes quero ser um europeu de salário digno que português condenado à miséria pelas suas incultas élites.

Afixado por: Paulo em março 27, 2004 04:10 PM

Caro Homónimo (de outro blogue dos que gosto. Que sorte!) Paulo:
Obrigado pelo seu comentário, que me permite esclarecer algumas coisas que, realmente, pouca gente acaba por ter tempo e paciência e até fontes para saber e organizar - tanto isto anda baralhado.
Pois bem. Tanto quanto eu consigo perceber,um liberal não é um libertário de direita, nem um anarquista um liberal de esquerda. Não. A propósito: já fez o teste no "politica compass" (cito numa resposta acima)? Há "direita de cima" e "de baixo", "esquerda de cima" e "de baixo" - e ainda é simplificar muito.
Compreendo-o muito bem quando lhe repugna a conotação do liberalismo com o que aproxima direita mais reaccionária, conservadora, etc. Compreendo muito bem. A mim também me dá calafrios o que dizem alguns dos que se auto-proclamam liberais, e também aquilo de que os acusam os "de esquerda colectivista"...Principalmente porque o que eles dizem não é o que eu digo.
Mas tentando pôr (à minha maneira) os pontos nos "ii" sem fazer um testamento, eu diria, e ainda usando "direita e esquerda", só para facilitar.

Há assim 1) numa direita muito à direita, os conservadores que por comodidade se dizem liberais (mas são conservadores, e alguns são neoconservadores - portanto mais direitistas ainda), 2) ainda bastante à direita, os neo-liberais, os dos rios privados e da demolição sem dó nem piedade do Estado - a esses se chama por vezes libertários, libertari(ani)stas, ou anarco-capitalistas, 3) no centro clássico, digamos, os liberais moderados, mas ainda sem grandes preocupações sociais, 4) mais no centro excêntrico - fora do espectro, portanto - os liberais sociais e éticos, que recuperam os valores de Adam Smith todos: Liberdade, Igualdade e Justiça, e se não contentam com uma democracia só formal, mas querem uma democracia ética 5) mais à "esquerda" (mas na realidade também fora do espectro tradicional), os liberais sociais tout court, que se preocupam também com a igualdade social, mas que por vezes têm posições um pouco mais ousadas em matéria moral, por exemplo - por exemplo, mais condescendentes com reivindicações de aborto,drogas, homossexuais, etc. 6) e depois, dando um salto, porque a família tem semelhanças aqui e ali mas não é a mesma, é que vêm os anarquistas ou libertários no sentido anarquista, que têm várias famílias também. Uma delas é um vago anarquismo passivo ou apolítico (quase nem se pode dizer anarquismo), outras estão mais próximas do marxismo, do sindicalismo, e há até "anarquistas" quase fascistas na mitologia. Um conservador reaccionário convertido à economia neoliberal é quase de extrema direita, no sentido tradicional (mais à direita só fascistas e nazis), enquanto um anarquista clássico, adepto de formas de terrorismo (veja-se por exemplo "Os Justos", de Dostoiewski), está sem dúvida na extrema esquerda, sendo ao seu lado uns "cordeirinhos inofensivos" (e claramente mais à direita) os maoístas, os trotsquistas... e os nossos bloquistas...
É assim que eu vejo as coisas.
Cá para mim, continuo a dizer que sou liberal, apesar de tanta confusão. Os outros é que apropriaram o nome. Para mim liberais a sério só são de três tipos: os moderados, os sociais e os sociais éticos.
Diga coisas...

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 27, 2004 07:02 PM

PORTUGAL DECLINANTE e LIBERAIS EM VALE DE LOBOS

"O liberalismo não voltará a triunfar em Portugal pela simples razão de que Portugal está a deixar de existir. Francamente, não terei pena: o passado ninguém nos rouba e para o futuro antes quero ser um europeu de salário digno que português condenado à miséria pelas suas incultas élites."

ESte seu último parágrafo é muito pessimista. Pode ser que tenha razão quando diz que Portugal está a deixar de existir: há muitos sinais de decadência. Mas creio que se acreditarmos que seremos europeus com melhores salários sem autonomia nacional é que mais depressa acabamos com Portugal. E realmente a experiência de união com Espanha (1580-1640), se também entusiasmou alguns, e beneficiou algumas pequenas castas, foi calamitosa para a generalidade dos Portugueses. Admito que um punhado de "happy few" - em grande medida dessas elites incultas - vão ganhar muito dinheiro, prestígio, visibilidade até com um Portugal diluído numa Europa tentacular, concentracionária. Não o povo miúdo. E depois, o passado, rouba-se sim. Contam-me que precisamente na Bélgica, a seguir à II Guerra Mundial, tudo se fez para apagar a História do país nas escolas. Afinal, já se devia estar a preparar a grande cidade capital do Novo Estado Europalândia...
Vejo bem onde quer chegar, e seria tentado a concordar consigo se não fosse ter ainda esperança e a recordação histórica de que os povos sempre se dão mal quando desistem.
Saudações!

PS: O liberalismo que triunfou episodicamente em Portugal foi sempre sendo obstaculizado, traído, mesclado, com baronias de pacotilha, com compromissos castrenses, tanta tanta coisa... que de liberalismo teve só a promessa. Mas acho que é preciso estudar melhor a coisa. Claro que alguma coisa se fez. Mas orgulho-me mais dos Homens que das instituições. E sobre os Homens... Olhe o desencando do Alexandre Herculano em Vale de Lobos. Os liberais portugueses têm de sair de Vale de Lobos.

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 27, 2004 07:35 PM

Caro homónimo :) , obrigado pela sua pronta resposta. Fiquei esclarecido!

1 e para que conste. Nessa sua divisão seria eu então um liberal social tout court, muito tout court mesmo... dado que sou moralmente muito aberto (eu diria decadente, mas isso é outra conversa). Ferozmente aberto.

2. A sua definição do "espectro" corresponde à minha.

3. Faltou definir com mais rigor o anarquista puro (que não duro pois um anarquista puro é um coração mole por definição). Abreviando, o que almeja a ausência total de Estado num mundo de equilíbrio onde cada homem é realmente e sem nenhuma margem para dúvidas igual a outro homem. Utopia, dir-me-á. Eu continuo a sonhar.

4. No caminho para a utopia (e não me importava NADA de lá estar e até ficar, a meio caminho...) teríamos uma sociedade com um Estado mínimo com a função de assegurar a Liberdade, a Igualdade e a Justiça E A DISTRIBUIÇÃO MAIS HOMOGÉNEA DA RIQUEZA, já agora.

5. Desejar isso (logo, ser um liberal social tout court) não é a mesma coisa que almejar a Utopia?

Na prática é. Mas está bem: o pensamento anarquista tem cem anos de pó em cima e é pouco sexy (para mais porque esteve conotado a práticas entusiásticas e apressadas no início do século passado, levando a essa sua aproximação ao "terrorista". Na altura eram apenas bombistas. Mas vamos modernizando os discursos) enquanto ser um pensador liberal social fica bem nos salões, é mais "moderno".

O Anarquismo é apenas um modelo surgido demasiado cedo e em má altura: na sequência da observação do impacto da industrialização, em meados do século XIX, numa sociedade camponesa e artesã. Tivesse Proudhon nascido 100 anos depois... e Bakunine seria apenas mais um comunista radical e hoje líamos e citávamos Proudhon sem o associar à
Utopia de Moore.

Na verdade, penso que não há muita diferença entre um liberal e um anarquista. Exceptuando esse ligeiro detalhe que é a propriedade :)

Por mim, que já estou velho, até estaria disposto a ceder e a admitir propriedade SE visse efectiva justiça social e distribuição menos fascista da riqueza, que está hoje tão concentradíssima como no tempo de Proudhon...

Interrompo aqui porque já me perdi nos pensamentos e o Sporting já está a jogar. Até logo.

Afixado por: Paulo em março 27, 2004 09:26 PM

É sempre positivo ver mais cidadãos a chegarem à conclusão que são liberais sociais! ;) Que sem dúvida tem muito futuro, pois é a ideologia dominante (mesmo em Portugal) entre os mais jovens, apesar de estes não o saberem.

Convido-o pois (ao Paulo Querido) a visitar o Speakers Corner Liberal Social (blog.liberal-social.org).

Orgulhamo-nos de não ser Esquerda nem Direita (que coisa do passado), mas simplesmente defensores da liberdade individual e em permanente busca da melhor solução para os problemas, sem preconceitos.

Aliás, peço desculpa pela promoção, mas um dos nossos membros acabou de publicar um óptimo artigo sobre a Microsoft que provavelmente seria do seu interesse.

Um abraço,

Miguel Duarte

Afixado por: Miguel Duarte em março 27, 2004 10:21 PM

Caríssimo Xará (agora, se me permite, e para variar, assim à brasileira):
Vou ser assistemático agora. A sua resposta é estimulante. Gostei muito. Por isso, teríamos de conversar com muito mais calma... Quero só dizer-lhe que Proudhon também é dos meus. E também Thomás More. Escrevi uma tese pesada sobre utopia, e em Novembro, perante um público de advogados, juízes e sobretudo conservadores de registo, comecei uma conferência na Bahia dizendo: "A propriedade é um roubo". Mas fundamentalmente para provocar, porque eu sou pela propriedade liberal social, mais ou menos nos termos de Tomás de Aquino, modernizados... Pode ler-me (se tiver pachorra) em 24/1/2002 - http://blog.liberal-social.org//archives/2004_01_01_archive.html
Mas compreendo bem que perante as desigualdades e as injustiças gritantes, há razão para a "revolta" interior.
Na minha classificação pessoal acho que o Proudhon é socialista, dos puros, e não lhe chamaria utópico. Como sabemos, isso do socialismo utópico foi inventado pelos marxistas para denegrir os anteriores e derrotados. Mas o Proudhon e o Moro são dois clássicos a venerar, sim senhor. Fica muito por dizer...
Temos um dia de conversar à roda de um café...ao vivo.

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 27, 2004 10:34 PM

Caro PFC: aceito o convite para um café ao vivo! Arranje lá uma horita no seu apertado calendário. A nossa conversa estimulou-me uma parte dos neurónios como há muito não acontecia, só por isso já lhe estou grato. Tomei a liberdade de pensar alto e com os dedos no meu blog (os Trackbacks desta entrada do Fumaças têm os links directos para os dois-textos-dois), onde lhe dou algumas respostas. Hum... provocações talvez seja melhor :)

Um abraço

Afixado por: Paulo em março 30, 2004 01:09 AM

Caro PQ: Fico contente com o que me diz. A mim também me inspirou ao ponto de ter sido a primeira vez que sintetizei no papel o que tinha na cabeça sobre alguns assuntos. Obrigado também.
Vamos lá a esse café! Vou estar em Lisboa nos dias 3 e 4 na Convenção da Nova Democracia. O que me apetecia era convidá-lo a aparecer por lá... Mas como acho que isso seria excessivamente proselítico (e isso faz-me alergias), o que lhe sugiro é que por e-mail troquemos telefones para combinarmos esse café no fim de semana. Mas se se sentir tentado a tomar esse café no espaço Chiado, tanto melhor...

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 30, 2004 09:26 PM

Caro PFC: troquemos então mails com telefones. Apreciei bastante a sua atenção, mas não me cairão os parentes na lama por aparecer no espaço Chiado, vou onde quero e já fui a sítios piores que uma convenção partidária :) Estou de pai no próximo fim de semana e a minha filha adora "fnacar", tal como eu. Fica combinado um café por lá. Um abraço.

Afixado por: Paulo em março 30, 2004 10:28 PM

Caro PQ: Escolhido o local e as armas, vamos lá a esse "duelo" amigável...Como saberá, o meu Emílio é o pferreiradacunha@sapo.pt. E, por acaso, o meu filho também vai estar lá no Espaço Chiado comigo, e somos ambos fãs da FNAC.
"Les beaux esprits se rencontrent"...Passa agora a conversa para a via e-mail.

Vai ser uma séria concorrência aos paineis da Nova Democracia... Uma espécie de painel paralelo sobre Ideologias...Promete! ;)

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em março 31, 2004 07:35 AM

SUUM CUIQUE

Tem de dar-se o seu a seu dono.
Numa troca de mensagens, no "Fumaças", aqui reproduzida, atribuí, por razões que só a psicanálise poderá averiguar, "Os Justos" de Camus a Dostoiewski. Por meter com russos bombistas? Aqui ficam, para o Além, os nossos pedidos de desculpas a dois grandes monstros-sagrados da Literatura Mundial.
E, naturalmente, aos leitores...

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em abril 1, 2004 01:11 AM

Eia! Que saudades, Professor, das nossas discussões nas aulas de História do Direito à 9 da matina de sexta!... Sempre acutilante!
Vejo que mudou a sua opinião acerca das novas tecnologias :))) ou será que aquelas posições anti-e-mail, internet, etc. não passavam de provocações? hmmmm...
Já agora aproveito para tentar saber se tem algum blog com que colabore frequentemente... :) Sempre o poderei visitar mais vezes!

Mais saudades e um abraço da ex-aluna da UM que se transferiu para Psicologia,

Helena

Afixado por: Loopy em abril 1, 2004 02:55 PM

Olá Helena, que saudades, é verdade!
E claro que eram provocações: eu sempre me diverti imenso na net... :)
Òbvio que há maluquinhos que vivem aqui, mas com conta, peso, e medida, é muito bom.
Tenho um blog muito irregular, que é o Heterodoxias: www.heterodoxar.blogspot.com
Apareça quando quiser por lá. E o e-mail também já sabe...
Irei também visitá-la ao seu blog...
Até breve!

Afixado por: Paulo Ferreira da Cunha em abril 2, 2004 02:19 AM

:) Estamos combinados!

Acredite ou não, fazem-me imensa falta aqueles desafios e "picardias"...
"O que faria Martinho Lutero se houvesse internet naquele tempo?!" (lolololol! O Professor conseguia ser mesmo convincente... lolololol... E nós tão crédulos...)

Encontrei hoje a Luísa e a Vanessa e falámos em ir visitá-lo um dia destes ao Porto... Acha que a sua paciência comporta 3 ou 4 "penetras" numa das suas aulas?

Um abraço e até breve!

Afixado por: Loopy em abril 3, 2004 10:18 PM

A propósito! (Já agora, aproveito... eheheh) Poderia dar-me alguma(s) referência(s) de livros que abordem o tema do sentido da vida e/ou do "modus vivendi"? O ramo da filosofia que se debruça acerca destes temas é a Ética, não é? Sinto cada vez mais que o sentido da vida é uma coisa muito personalizada, e que exitem tantos sentidos quantas vidas... Mas, ainda assim, gostava de "ouvir outras vozes"... Estou actualmente a ler "A insustentável leveza do ser"...
Obrigada! :)

Afixado por: Loopy em abril 3, 2004 10:46 PM
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