Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.
Alberto Caeiro
Publicado por João Carvalho Fernandes em fevereiro 12, 2004 07:45 AM | TrackBackQueria antes de mais enviar-lhe um abraço de Timor-Leste, agradecendo a referência amável ao Purprazer. Digo-lhe que sou adepto do seu espaço, blogue Fumaças. Tem bom gosto, escreve sobre assuntos de interesse, escreve de forma interessante e inteligente, sensível. E isso não é assim tão frequente. Não é cínico e hipócrita, não é pseudo-coisa-nenhuma. Isso agrada-me muito.
Bonito poema este que aqui trouxe.
Um abraço cheio de calor,
PP
pois é, Pessoa sob a forma de Caeiro é um dos mais brilhantes amantes do mundo natural que conheço. e nele emprega a beleza daquilo que o Homem é capaz de produzir, a poesia.
Afixado por: jorge em fevereiro 12, 2004 05:35 PMa poesia é cool
Afixado por: ana em janeiro 24, 2005 07:07 PM